A Prisão do Oceno
Amor frágil como um gato
Ela era menor que um gato, cara amarrada, frágil como uma taça. Meu primeiro pensamento foi: “eu...
é preciso quebrar o tédio em terças chuvosas
Era uma terça quente, havia batido os 36 graus. Cheguei em casa umas 21h por causa da chuva. Um...
Minha música favorita é qualquer uma cantada por ti
– Eu gosto quando você me conta histórias. – Pelo visto, elas são boas. – Gosto do movimento da...
Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um sol forte que, hora ou outra, era coberto por nuvens sorrateiras. Minha coleira era suas mãos. Ela mantinha um passo à frente, brincava com os nós dos meus dedos, cantarolava, às vezes me beijava, mas o intuito daquela romaria era chegar no seu lugar secreto.
Me livrou da guia, saiu correndo e dançando, leve como um gato. Fiquei para trás, analisei o contraste do biquíni minúsculo com a praia. Tudo me encantava.
Eu era um completo estrangeiro, cada detalhe me soava novo: as flores do biquíni, a formação rochosa rente à orla, o sol que me queimava o corpo.
De volta à guia, ela me levou pra um pequeno monte de pedra. Subi torto e cheguei ao pódio com meu troféu sorridente. A areia realmente cortava minhas pernas, o vento batia forte na curva das rochas e pequenos grãos iam de encontro aos meus pés.
— Esse é meu refúgio, é nossa recompensa pela caminhada e pela areia rasgando a gente.
Precisei ficar um tempo pra assimilar aquela praia, uma meia lua que formava uma grande piscina de ondas baixas cercadas por uma cadeia rochosa rente à pequena faixa de areia.
A prisão do oceano, a mais fácil de fugir, mas fugir pra onde?
— Vamo, boy! Chega de olhar pra cima, olha pra mim.
Ela se livrou da parte de cima do biquíni, seios firmes e corados de sol, toda sua pele era bronzeada, um tom branco amadeirado, levemente queimado, cabelos longos e ondulados ganhavam vida própria pelo vento. Talvez por mulheres como ela que os marinheiros se jogavam no mar.
— Boy do céu, tu realmente precisava de sol, olha que pele opaca, e essa marca vermelha nos braços? Tu anda sem camiseta?
— É o bronze do paulista, a gente só queima o braço saindo pra almoçar, já que mal vemos o sol de manhã e quando saímos está de noite.
— Gente! Como que se vive assim?
— Acho que a gente só sobrevive mesmo.
— Pois vamo se curar desse surto de cidade.
Dentro da água ela me abraçou, beijou meu rosto, sentia as ondas perfurando o pequeno vão que ficava em nossos corpos, o bico dos seios enrijecidos acariciavam meu corpo, sua mão vagava pelo meu cabelo, sua língua no meu pescoço, o sol pegava o trem azul e ela estava na minha cabeça.
Ela que era tão falante ficou em silêncio, o mar conversava com a gente, às vezes algum pássaro passava pra contar uma história, o vento sussurrava em nossos ouvidos e nossos corpos em terapia. Permanecemos assim por um bom tempo.
— Acho que a única praia que eu visitei foram as do litoral sul de São Paulo, eram mais perto, na verdade pareciam uma extensão da capital, muita gente, muito barulho, meio caótico.
— Paulista sai do lugar e leva a poeira junto, vocês vivem a cidade, a agitação, a depressão, o descaso, aqui é um refúgio, te prendi no meu corpo e nos aprisionei debaixo dessa muralha, a cidade não te alcança aqui.
— Minha cabeça é a cidade.
— A de cima eu não sei, mas a cabeça debaixo parece bem feliz comigo.
Eu gargalhei, e lembrei que devia ter meses que não ria, e deus sabe se em algum momento uma risada tão sincera foi seguida de um beijo tão sufocante. Um beijo que levava um pouco da minha alma embora e preenchia meu vazio com o canto da sereia. Sua mão boba me acariciava, eu estava preso nela.
— Parece que eu fui encantado pela sereia.
— Se eu fosse sereia tu tava ferrado, ia te afogar aqui, e mesmo se eu fosse uma sereia boa, como tu ia me comer?
— E se fosse uma sereia invertida?
— Imagina que bizarro metade peixe com uma cabeça gigante e guelras fazendo barulho. Boy, pra tua sorte eu sou mulher de carne e osso, e a gente não vai transar aqui.
— É um lugar imaculado?
— Claro que não, coisa de adolescente foder no mar ou na areia, imagina, entrar areia nas nossas partes? Isso dói pra porra, sabia?
— Pelo visto você já foi uma adolescente aventureira.
— Aventureira eu sou até hoje, mas prefiro transar no conforto da minha cama, coisa que podemos fazer mais tarde, agora só quero te deixar com tesão, te fazer esquecer a cela de concreto.
— Gosto de estar preso com você dentro dessa muralha.
— A muralha é grande e quase impossível de escalar, mas muito fácil de contornar, tu olha muito pra cima e esquece que tem saída aos lados.
— Na minha cidade a gente só olha pros lados pra não ser atropelado.
— Pelo teu estado, algo já te atropelou.
— O capitalismo provavelmente.
— O sistema te devora de cima a baixo, e não dá pra se livrar dele muito facilmente, então vamos comer pelas bordas.
— Posso te chamar de borda?
— Bicho besta esse paulista viu!
— Sobrevivemos assim na minha terra, fazendo piada pra não chorar.
— Aqui a gente faz piada porque quer rir mesmo, mas eu te entendo, preso em salas, escritórios, prédios e diversas estruturas de concretos, me parece decadente.
— Por isso vim parar aqui.
— E teve a sorte de me ver no caminho, e a única coisa de concreto que eu quero você dando atenção é esse monumento aqui que tá te beijando.
— Uma deusa grega de mármore?
— De pedra, areia, mármore, qualquer coisa, como boa deusa vou te guiar, te mostrarei caminhos, saídas, descidas e alguns morros.
— E onde termina tudo isso?
— No meio das minhas pernas.
— Gosto desse culto.
— Estamos presos e libertos ao mesmo tempo, vivendo, o que deve ser novo pra ti, temos o vento pra sentir, temos a água, o sol, temos nossos corpos, quero que tu sinta, veja, aprecie, e que tudo isso entre na sua cabeça levando o cinza da cidade embora.
— Já sinto os grãos de areia me tomando, inclusive tem um pouco na minha bermuda.
— Viu, já tá fazendo efeito, agora é só esperar o sol se perder na falésia pra gente ir embora.
Os últimos raios davam uma cor de vinho branco pra água, me embebedei no mar, embriaguei minha cabeça, fiz reverências à deusa e agarrei seu corpo como se fosse uma âncora. Preso nela, preso ao mar, preso pela falésia.
Nunca me senti tão liberto.

Adorei o seu conto! A história era muito envolvente e os personagens eram cativantes. Você tem um talento natural para a escrita. Continue escrevendo e compartilhando suas histórias com o mundo.
Belíssimo!