Amor frágil como um gato

Ela era menor que um gato, cara amarrada, frágil como uma taça. Meu primeiro pensamento foi: “eu preciso amar ela?”. Era minha filha. Eu deveria cuidar daquele ser, amá-la incondicionalmente, mas, sinceramente, eu acho que ela nem devia ter nascido.

Foi ideia da minha esposa ter filhos. Eu me contentaria com mais um gato, mas ela disse que não, que precisávamos de uma criança, que logo faria 38 e não poderia deixar para depois. Por mim, a gente adotaria. Mas ela queria aquele serzinho saído de suas entranhas. Do mesmo sangue, do mesmo DNA, com a cara parecida, os mesmos problemas hereditários e o mesmo caos da sociedade moderna.

Ainda com ela no colo, dei um sorriso amarelo. Ouvi os parabéns da equipe médica, mas só queria fugir, abrir uma cerveja e apreciar a rua. Eu tinha que ser responsável; afinal, tinha acabado de ser pai… Eu mal tive pai. Ele sumiu quando eu tinha uns sete ou oito anos, e agora eu deveria ser um também.

Preciso ser diferente, preciso ser gente, preciso disso e daquilo, mas tudo parece um saco. Devolvi o ser para a mãe. Tive medo que ela caísse. Estava acostumado com o Tico, nosso gato, uns cinco quilos. Eu podia pegá-lo no colo e derrubar sem querer; ele cairia em pé e sairia andando. Agora essa criatura não. Ela pode morrer. Posso causar uma catástrofe apenas por ser desastrado.

Eu queria mudanças na vida, mas essa me pareceu drástica demais. Minha esposa veio com aquele papo de “fortalecer o casamento”. Eu preferia tentar uma posição do kama sutra, fazer troca de casal, sei lá. Largar tudo e sair viajando. Ela já foi mais assim: gostava de beber, sair, curtir. Éramos uma dupla imbatível. Mas a idade chega, o corpo cansa, e viramos um casal monótono que vê séries juntos e transa duas vezes no mês.

O tédio me consumia, isso é fato. Mas por que caralhos eu comprei essa ideia? Eu nunca quis ser pai. Nunca quis uma criança. Não quero ser responsável por outra vida. Essa menina vai crescer, fazer merda, sucumbir ao caos do mundo e virar mais uma adulta triste. É um ciclo. Não temos o que fazer. Sinto pena dela. Eu não ia querer ter um pai como eu, deprimido, alcoólatra e sem amor.

Será que a gente aprende a amar? É uma coisa de tempo, de convívio. Uma hora vou olhar pra ela e dizer: “porra, você é o amor da minha vida”? Vida essa que eu nem gosto tanto, mas é a única que eu tenho. Não lembro quando passei a amar a mãe dela. Não foi à primeira vista, não teve estalo. A gente só passou tempo demais junto e resolveu dividir uma casa.

Talvez o amor seja uma conveniência.

Acho que amei mais a Lilian, que pintava quadros e discutia Belchior. Ou a Luana, que cantava música em espanhol e tocava violão. Ou a Isa, comunista marxista que arrumava briga em bares. Não lembro como esses amores acabaram. Começaram, terminaram, foram destilados e digeridos. Sinto falta do caos que me proporcionavam. Dos shows, das mostras, dos festivais. Até do nariz sangrando por arrumar treta com gente merda.

Minha esposa era atriz. Fazia peças em teatros que fediam a mofo, gostava de cerveja e tinha uma queda por cachaça. A gente vivia entre assistir peças, filmes, beber, transar e acordar de ressaca. Hoje ela não atua mais. Dá aula numa faculdade, meio careta até. Reclama dos jovens.

Em que momento a gente deixa de ser a geração no auge e passa a ser a que reclama das mudanças?

Nunca imaginei que aquela mulher, que atuava com os peitos de fora pintados de tinta vermelha, ia querer um filho. Uma criança saída de suas entranhas. Um ser que partilha seu sangue. Uma pequena menor que um gato e com cara amarrada. Eu não quero ser responsável. Eu quero uma cerveja, andar na rua, ver peças, mostras, shows, ver mundo. Não parece certo fazer isso com uma criança no colo.

Pai é uma coisa meio inútil. Eu cresci sem, mas me vem uma culpa só de imaginar ela crescendo assim. Talvez o amor nasça dessa culpa, seja construído bloco a bloco. Talvez eu me impressione com cada evolução: os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras raivas. Talvez eu ame esse ser como amei a Lilian, a Luana, a Isa, a mãe dela. Espero não amá-la como meu pai e, muito menos, como eu me amo.