Crônica de um carnaval anunciado

A Prisão do Oceno

Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um...

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Carnaval em São Paulo é um ato de guerrilha. É o combate contra a prefeitura, contra o Estado, contra a chuva que sempre cai e contra as ideias idiotas que só um burguês paulistano poderia ter. 

Tudo em prol dos nossos quatro dias de paz.

Se enfiar naquele mar de gente suada, beber uma cerveja superfaturada ou um corote barato comprado no mercado, sair seminu, berrar, cantar, gritar, beijar e dançar: esse é o nosso motim. Nossa guerra contra as 44 horas de trabalho semanal, contra as três horas de transporte público precarizado, contra o burnout, o estresse, a raiva e o capital.

A gente vende o terno, o relógio e a alma para poder esquecer que tudo acaba na quarta-feira, aquele dia fatídico em que sobram apenas nossas cinzas, o fígado arrebentado, bolhas nos pés e uma virose de brinde. Mas quem se importa? Lutar pela paz é um ato de rebeldia, mesmo que essa luta signifique estar num bloco patrocinado por cerveja com um DJ escocês, ficar sem ar, subir num ponto de ônibus feito de vidro e, no final, levar uma pancada de um policial que ganha uma mixaria e foi obrigado a trabalhar enquanto nós nos divertíamos.

Nada mais paulistano que isso.

Eles tentam roubar nossa felicidade; retiram nossos blocos, nossas músicas e até nossos banheiros, mas nada impede a alegria. Você já saiu de casa, atravessou a cidade, perdeu seus amigos e conheceu novos. Tomou banho de bebida, bateu em uma camisinha transformada em balão e levou um pisão que vai deixar seu dedo roxo. Mesmo assim, a luta continua. No fim, a única pergunta que resta é: “Onde é o próximo bloquinho?”.

Tudo é contra o paulistano durante o Carnaval. Até São Pedro, por inveja de Paulo, resolve inundar a cidade. Mas, mesmo debaixo d’água, você encontra aquele boteco apertado onde toca Amado Batista. Ali, onde os bêbados te oferecem um churrasco frio de duas horas atrás e te deixam até trocar a música, você encontra sua trupe. Sua trupe de fodidos que vai voltar ao trabalho na quarta com vontade de jogar tudo para o alto e sair correndo atrás de um trio novamente.

Você e seus companheiros se unem nessa grande ilusão; nessa vontade de tirar a máscara, a roupa e a sanidade. Todos contra a burguesia, o capital e as crônicas de trabalho. A gente se guarda para esses quatro dias porque viver nesta cidade é passar raiva; é viver dentro de uma máquina que, em todos os outros dias do ano, nos espreme até virar suco.