Dalí perdido nos braços de Gala

Minha Cabeça Desmonta

Minha boca amargaAmarga à cervejaAmarga à buceta Amarga à ressaca Minha cabeça desmontaRoda pela...

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– Minha boca está com um gosto estranho.

– Deve ser a mistura da cerveja com minha menstruação.

– Nojento isso.

– Bom, cê disse que ia me fazer gozar.

– Pela sua cara, não consegui.

– Você pode tentar mais tarde.

– Posso usar sua escova?

– Claro que não, pega uma nova na segunda gaveta do banheiro.

Ela morava numa república com mais umas três pessoas, para minha sorte, o quarto dela era uma suíte, e eu não ia precisar ver a cara de mais ninguém, então cambaleei nu até o banheiro. Peguei o pacote de escovas coloridas, tinha apenas uma rosa. Ela nunca foi muito fã de cores “femininas”.

Me olhei no espelho, minha cara parecia daqueles palhaços tristes, lastimável. Minha boca tinha gosto de ferro e pão mofado, quando comecei a escovar misturou com o gosto do eucalipto, tive ânsia, mas consegui segurar.

A cabeça girava, bebi água da torneira igual cachorro, lavei o rosto, enxaguei a boca diversas vezes, quase não consigo tirar as manchas de sangue, mas no fim eu parecia um pouco mais aceitável.

– Você sabe onde estão minhas roupas?

– Acho que tem umas peças na sala, outras na cozinha, sua meia tá ali no canto, ao menos uma delas.

Ela estava calma, plena e nua com seu notebook branco no colo, provavelmente fazendo algum trabalho que eu nunca compreendi.

– A gente transou pela casa toda?

– Não foi o melhor sexo do mundo, mas tá valendo.

– O pessoal dessa casa me odeia, imagina se pegam a gente transando.

– Azar o deles.

– Cê vai ao menos pegar minha roupa?

– Eu não.

Seu texto parece claro, mas aqui está uma revisão leve:

Peguei uma toalha, tampei as partes e saí.

Minha calça estava na sala, a camiseta no corredor, a blusa rente à porta.

Dei de cara com uma das moradoras, que estava tomando café com uma amiga, não trocamos palavra, mas pude ouvir risos contidos quando me abaixei para pegar a cueca debaixo da pia.

Voltei para o quarto. Ela continuava no computador, agora com um breve sorriso, olhando por cima dos óculos.

– Achou suas roupa

– Achei.

– Agora pode se vestir e ir embora.

– Como você é estúpida!

Ela manteve o sorriso, colocou o notebook do lado, e veio até mim. Me abraçou com força, beijou meu pescoço e começou a passar a mão pelo meu corpo.

Dessa vez eu iria saber onde minhas roupas estavam.

A gente fazia muito barulho transando, a casa toda devia ouvir, mas isso era problema deles. Era um sexo bárbaro, ela gemia alto e quase gritava enquanto eu a mantinha de joelhos apoiada na cabeceira da cama, era uma das suas posições favoritas. Aproveitava que estava rente ao seu corpo, mordia seu pescoço, apertava seus seios, puxava seu cabelo, dominava ela até o gozo escorrer em suas pernas e pingar na cama.

Por causa dessa brincadeira, até hoje ela tem um espelho quebrado e uma cômoda torta.

– Ao menos você me fez gozar dessa vez.

– De nada, mas me diz, como vim parar na sua casa?

– Meio óbvio, para quais braços você corre quando seu ânimo declina?

A gente se conhecia desde criança, não há um tempo da minha vida em que ela não estivesse comigo. Eram sempre os seus braços que me socorriam, nas crises de choro, ansiedade, pânico.

– Que horas eu cheguei aqui?

– Sei lá, eu tinha acabado de deitar, também estava meio bêbada, não tanto quanto você, ninguém bebe tanto quanto você.

– Eu simplesmente apareci?

– Como sempre, com os olhos inchados e falta de ar. Você tem saído com umas pessoas muito ruins; como alguém te larga naquele estado?

– Boa pergunta.

– Você lembra com quem saiu?

– Alguma menina aleatória.

– Você lembra o nome dela?

– Não.

– Pensando melhor, eu também teria te largado naquele estado.

Ela encontrou uma calcinha e um short no guarda-roupa e voltou para o seu computador.

– Ei, cê não vai me oferecer um café? –

– Eu lá faço café pra macho?

– Ignorante!

– Tu sabe onde é a cozinha, faz café e traz pra mim também.

Dessa vez, a cozinha estava vazia e pude olhar melhor. Achei minha outra meia debaixo da mesa, encontrei a calcinha dela ao lado da pia, mas não me dei ao trabalho de pegar essa peça. Fiz um café bem forte para ajudar na ressaca, a cabeça ainda girava. Voltei com duas canecas trincadas quase transbordando.

A gente comprou essas canecas na Espanha, elas tinham uns desenhos do Dalí, acho que foi a única coisa que ela manteve depois que nos separamos.

Seu diálogo está claro, mas aqui estão algumas sugestões para aprimorar a redação:

– Você vai trabalhar o sábado todo?

– Hoje é domingo, sabia?

– Sério?

– Sim, você deve estar bêbado desde sexta.

– Provavelmente.

– Já parou pra pensar que um dia não vou mais te estender os braços?

– Sim.

– E o que você vai fazer?

– Me jogar da ponte.

– Seu drama psicológico não vai mais funcionar comigo.

– A gente se conhece desde sempre.

– Isso não quer dizer que estarei aqui para sempre; você me faz mal, sabia?

– Desculpa, você parece tão forte.

– Pareço, mas não sou, só um pouco trouxa.

Ela não tirava os olhos do computador, mas pude ver as lágrimas escorrendo.

– Eu não sei muito bem o que fazer da vida.

– Nunca te pedi que soubesse.

A primeira lembrança que tenho dela é da escola, uma garota magra, com dentes grandes e aparelho, cabelos cacheados e uma expressão de poucos amigos, mais inteligente que a média. E eu, um moleque chato do fundo, que atazanava a vida dos outros.

Não lembro quando começamos a conversar, era uma amizade meio improvável, que virou um namoro também improvável, passando para um casamento ainda mais improvável, e que por fim se transformou em um divórcio, divórcio esse muito provável.

– Você tem algo daquela época além das canecas?

– Só os traumas.

– Também não caio mais nos seus jogos psicológicos.

– Mantive só as canecas, o restante foi para doação. Era muita coisa que me fazia lembrar de você.

– Por que manteve as canecas?

– Porque cada uma custou sete euros.

– O euro está caro.

– Sim, Dalí foi a melhor coisa que você me apresentou.

Ela nunca foi muito ligada à arte, mas realmente gostava de Dalí. No quarto dela havia um quadro enorme com um desenho da Gala feito em diversas bolinhas, a única coisa que quebrava o branco intenso do ambiente.

– Sempre preferi Magritte.

– Eu sei, você sempre gostou de se esconder como ele, mas sempre aparece inconveniente como Dalí.

– Por que você sempre me recebe?

– Nunca vou deixar você sozinho no estado em que sempre aparece aqui.

– Deveria.

– Deveria, mas você não tem espelho.

– Perdão.

– Relaxa, infelizmente sei que um dia você não vai mais aparecer, seja por ter encontrado o amor da sua vida ou por ter metido uma bala na cabeça.

– Não acredito no amor, muito menos na vida.

– Eu sei, por isso não estamos mais juntos, mas não vou te negar um abraço, nunca.

– Obrigado.

O abraço dela é o lugar mais confortável do mundo. Na cidade, na praia, na Espanha, em nenhum lugar nunca me senti tão bem.

Eu sempre volto para os seus braços.

– Acho que vou pra casa, vou te deixar trabalhar.

– Lava as canecas e deixa elas no lugar de sempre.

– Sim senhora, capitã!

Terminei de me vestir, peguei as canecas e pensei em dar um beijo de despedida, me desculpar pela noite, por todas as noites, pelo estresse, pela raiva, pelo cansaço. No entanto, achei melhor deixá-la com suas lágrimas curtas. Eu iria voltar outra noite, sóbrio, bêbado, sangrando. Voltaria até ela se dar conta de que as portas devem se fechar.

Antes de sair, resolvi dar um parecer sobre as peças de roupa.

– Sua calcinha está na cozinha.

– Não é minha aquela, pode deixar lá.