De vez em quando todos os olhos se voltam pra ela
Seus olhos não eram azuis, mas pareciam com o oceano
Numa mesa distante, um copo na mão, garrafa pela metade, longe da muvuca. Quando me deparei com...
O sol da Grécia não derrete minha mente
O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da...
Você não precisa de porto num mar sem vida
Nasci numa casa em movimento, uma casa que tremia entre idas e vindas de pessoas, uma casa viva....
O cansaço me doía nos ossos, o peso do dia em meus ombros como um encosto vivendo em minhas costas. Sede. A garganta seca, amarga, desejando uns tragos que amenizassem o ódio do dia. Subia lento, deixando rastros de mim pela rua. Faltavam poucas quadras até minha casa, mas pareciam quilômetros.
Muitos partilhavam a maratona: escravos de escritório, mendigos, bêbados, ratos de academia, putas – as figuras clássicas da cidade cheia. Todos exaustos, todos com seu pesar, todos com seu olhar perdido.
Olhar perdido.
Olhar encontrado.
Naquele mar de gente, me vi encarando um antigo rosto, que me soava como novo, que me fazia lembrar de eras e eras atrás. Eu nunca esqueceria aqueles olhos castanhos, o nariz miúdo, as bochechas grandes que realçavam quando ela sorria, os dentes devidamente alinhados. Agora, apenas algumas rugas próximas às pálpebras – essa era a única novidade.
Senti o tempo desacelerar. Os sons abafaram, as pessoas sumiram. Éramos apenas eu e ela, naquela troca de olhar, naquela sensação de surpresa, de curiosidade, de espanto. Nós nos reconhecemos. Quis saber o que ela havia achado de mim. Rugas? Menos cabelo? Mais ou menos peso? Meu semblante era o mesmo?
Um vulcão explodia na minha mente. Jorravam lembranças, dias, momentos, beijos, abraços, sexo, toques, conversas. Passamos uma era juntos, vivemos juntos, crescemos juntos, descobrimos juntos.
Lembrei de como ela se deitava sobre meu corpo, de como acariciava minhas pernas enquanto assistíamos filmes. Lembrei que ela não comia carne, mas era apaixonada por massa. Lembrei que amava filmes de terror, mas caía em todos os jumpscares. Lembrei de como ela colava a boca no meu ouvido e gemia alto para me deixar com mais tesão. Lembrei do dia em que entramos no mar e ela quase perdeu a parte de cima do biquíni por não amarrá-lo direito. Lembrei de quando ela estava bêbada e disse o quanto amava estar comigo.
Lembrei que odeio estar comigo.
Lembrei que tudo isso era passado.
Há quantos anos não via aquele olhar? Cinco anos? Cinco décadas? Há quanto tempo eu não me via pelos olhos dela? Não lembro quando parei de prestar atenção, de me apaixonar por aqueles olhos. Em que momento a deixei ir embora? E quando me arrependi disso?
Por que aquilo me doeu tanto?
Aquela troca de olhares continuava em câmera lenta. Um tempo curtíssimo. Eu quis puxá-la pelo braço, pedir desculpas, ajoelhar, berrar juras de amor, prometer mudanças, prometer um mundo novo, uma vida nova. Queria mostrar minha casa, apresentar meu gato, falar do trabalho novo, dos filmes, das músicas, desse novo ser que há muito tempo já não era novo.
Queria saber sobre aquelas novas rugas. O que havia nesse tempo e espaço? Quais seus frutos, suas glórias, suas mazelas? Ela poderia chorar no meu ombro ou entrar em êxtase com sua nova vida.
Eu queria seu novo mundo.
Mas ela apenas continuou seu trajeto.
Continuei o meu. Não olhei para trás. Olhar para trás seria voltar ao passado, e voltar ao passado é brigar com o “e se”. Cada “e se” criaria uma nova camada, uma nova explosão, terremotos, tsunamis. Cada teoria nova abriria mais o abismo.
Abismo que eu olho.
Abismo que me olha.
Não olhei para trás.
Mas cheguei em casa com lágrimas nos olhos.
