Desfeito e despedaçado

A Prisão do Oceno

Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um...

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— Sexo mal feito também é sexo?

— Aos olhos masculinos ou femininos?

— Além do orgasmo.

— Sexo mal feito é apenas uma má lembrança; aposto que você lembra mais das broxadas.

— As piores lembranças são mais vivas.

— Não sei se tudo é sexo: pode ser amor para os mais românticos, ou uma foda para os mais promíscuos.

— Levamos em conta a nomenclatura, então?

— As palavras usadas podem mudar o sentido; fui considerado rude por trepar.

— Você é rude, indiferente do que faz.

— Digo que uma trepada bem dada é mais marcante que uma noite de amor – até porque eu sei com quem estou fodendo, mas não sei quem eu amo.

— Um amor mal feito é considerado amor?

— Aos olhos fraternais ou românticos?

— Aos seus olhos castanhos, baixos e com olheiras.

— Amar é como o impressionismo: precisa ser visto de longe. De perto, é um emaranhado de tinta sem distinção.

— Vendo de perto, talvez seja paixão.

— Uma paixão mal vivida continua sendo paixão?

— Toda paixão é bem vivida, só que ela pode nos deixar em pedaços.

— Não preciso me apaixonar para acabar despedaçado; a vida já faz isso.

— E como chegamos a uma vida bem vivida?

— Transando, amando, se apaixonando e colando os pedaços?

— Aposto que seus pedaços estão perdidos entre paixões, amores e trepadas.

— Sobra algo de mim?

— Sobra um ser mal amado, cansado, entediado e sem saber o que faz da vida.

— E se a gente transar para dar sentido a isso tudo?

— Precisa ser um sexo bem feito, senão voltamos ao início do diálogo.