É Preciso Imaginar Sísifo Entediado
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Quando chego em casa nada me consola, nem a mim, nem ao gato. Ele me recebe com miados...
Disse à minha esposa que precisava resolver algo no trabalho. Com atenção na TV, ela apenas me pediu para trazer pão quando voltasse. Peguei uma blusa grossa, passei pelo quarto da minha filha e me despedi. Ela me acenou sem tirar os olhos do celular. O cachorro foi o único triste com minha saída, ficou aos meus pés até o portão. Abaixei-me, beijei sua testa e ele me lambeu o rosto.
Desci a rua, virei a esquina, entrei no bar. Lugar sujo, a mesa de sinuca ocupava quase todo o espaço, dois caras apostavam algo importante. Mantinham uma concentração invejável. Sentei no balcão. Bastião pegou um copo do escorredor, encheu até a tampa com uma cachaça que parecia álcool de limpeza e me deu. Ele me chamava de “Três Goles”. Eu sempre matava o copo em três goladas e sempre tomava três copos na noite. Na verdade, eram nove goles, mas três sempre pareceu um número melhor. A bebida rasgava a goela como uma espada banhada em fogo, mas meu semblante se mantinha o mesmo. O álcool preenchia um pouco a cabeça.
Minha cara de tédio foi cortada pela briga na sinuca. Um deles quebrou o taco na mesa e já estava para enfiar no bucho do outro. Bastião pegou a faca do fundo do balcão e apontou para os dois.
– Agora vocês me devem três tacos! Três! Acho bom vocês pagarem até semana que vem porque eu sei onde os dois moram!
O que havia quebrado o taco saiu xingando algo meio inaudível. O outro chegou no balcão, se desculpou e tirou uma nota de 20 para compensar parte do estrago.
– Val, cês me devem quase 200, cada taco desse aí é 50 pila e ainda tem a porra das dose que cês não pagam tem três semanas, caralho!
– Pô, Bastião! Perdoa, perdoa, semana que vem eu pego vale e pago mais 100. Depois, o corno do Rui traz o restante. O arrombado não sabe perder, sai todo machão, mas é gente boa. E qualquer coisa o Três Goles aí paga uma, não é, meu amigo?
Sorri de canto, era a primeira vez que ouvia o nome da dupla. O Val saiu e o Bastião veio se lamentar.
— Porra, Três Goles, bando de filha da puta, é 50 pila cada taco! Tinha seis, agora só tem três nessa merda. E se eu pego daqueles tacos vagabundos, aí que nego arrebenta eles mesmo, bando de idiota.
Concordei com a cabeça, matei o segundo copo e ele me serviu o terceiro.
Ao contrário do hábito, bebi o terceiro copo de uma vez, paguei, saí e continuei minha romaria. Meus dentes batiam de frio e o calor da cachaça ainda não tinha ido para o resto do corpo, só queimava o estômago. Desci a rua até o quarteirão de baixo, subi mais duas quadras onde tinha um conjunto residencial de baixa renda, apertei o 10.
— Oi meu amor, pode subir.
O prédio cheirava a mofo, tinha uns elevadores antigos, com um botão daqueles que afundam. Talvez o efeito do álcool tenha começado; percebi que o AP 10 era no primeiro andar, não no décimo como imaginei, sem falar que aquele prédio só tinha 5 andares.
Subi a escada, meu coração estava meio disparado. Abriu a porta uma moça de vestido rosa curto, cabelo emaranhado e olheiras. Não era bonita, não era feia, parecia ter uns 20 anos, corpo magro, barriga levemente saliente, uma pessoa normal.
— Vem, vida.
Me levou a um quarto de frente para a rua, onde a janela pegava toda a algazarra do bar que ficava embaixo. Fechou a cortina amarelada, encostou a porta. Havia uma luz fraca que vinha do corredor. A cama tinha um forro escuro, um guarda-roupa no canto, uma mesa de cabeceira. Um quarto normal.
— É 120, como você vai pagar?
Tirei umas notas do bolso e paguei.
— Que tal um “duplinha” hoje, amor?
Neguei com a cabeça.
— Tira a roupa e deita.
Obedeci, tirei a blusa grossa, camiseta, sapato, meia e calça, e fiquei de cueca. Não sabia o que fazer, se eu tocava nela, se ela iria tirar a roupa, então apenas me sentei ao seu lado. Ela abriu um preservativo, colocou na boca como se estivesse chupando a ponta, o que a fez parecer uma boneca inflável. Me empurrou com força para que eu deitasse e começou a me masturbar.
Era um movimento de máquina, um sobe e desce numa velocidade contínua, sem diferenciação, sem pausa. Ela colocou a camisinha com meu pau ainda mole e continuou seu trabalho.
Me manejava como se eu fosse uma ferramenta, o álcool subia, sentia o calor na garganta, senti ânsia, senti curiosidade, senti raiva, um tédio que me consumia, aquela masturbação ridícula, eu paguei por aquilo, me senti idiota.
Me levantei.
— Não vai, moça. Desculpa.
— Relaxa, que tal uma duplinha, a outra tem um rabão, você vai pegar as duas de quatro.
Devia ter negado, mas a sina de sentir algo foi maior.
— Espera, vou chamar ela.
Continuei deitado. Veio a outra, um pouco acima do peso, com um vestido preto curto, cabelos escuros e olheiras também.
— Oi, vida, são mais 120.
Paguei com minhas últimas notas.
A de vestido rosa me jogou na cama com a mesma força anterior e continuou seu trabalho. A outra veio até o outro lado da cama e começou a passar a mão em mim. Além da masturbação, ambas me alisavam, sentia suas unhas, senti tesão. Apertei o seio da de preto.
— Não aperta com essa força, por favor.
A resposta soou automática, ela já deve ter repetido isso dezenas de vezes. Me senti culpado, bêbado, perdido. Elas continuaram seus trabalhos, o toque padronizado, eu havia ficado duro.
— Moça, espera…
Gozei, não durou 10 minutos, queria ter as duas de quatro, queria que elas gemessem, queria enfiar fundo em cada uma delas e bater tão forte em seus rabos que daria pra ver minha mão marcada naqueles corpos.
— Desculpa, vida, achei que você tinha falado para eu não parar.
Continuei deitado, queria sentir algo, e senti.
Me senti humilhado.
Fiquei olhando para o teto. A de vestido rosa largou meu pau e ficou mexendo no celular enquanto passava a mão na minha perna, mão que se moviam na exata velocidade da masturbação. A de preto do outro lado passava acariciava meu peito, talvez na mesma velocidade com que me masturbaria, mas não deu tempo de descobrir.
Senti a cachaça na garganta, os mesmo movimentos em meu corpo, contemplei o teto branco em busca de respostas… Branco igual a porra que escorria na minha perna.
— Quer tomar banho?
— Não.
— Acho que está na hora de você ir, vida.
— Sim, já fui humilhado o suficiente.
A de rosa riu com minha resposta, tirou a camisinha pendurada, me deu um pouco de papel higiênico para me limpar e depois saiu do quarto. A de vestida de preto, se levantou, pegou um roupão e voltou para o lado da cama.
– Você tá bem?
– Humilhado, mas bem.
– Isso é bem comum, relaxa. Quantos anos você tem?
– 37 e você?
– 19. Você tem idade pra ser meu pai, talvez até seja.
– Não, nunca me relacionei com outra mulher.
– Você não está perdendo muito, nem transando com outras mulheres e nem sendo meu pai.
– Acabei de perder a dignidade, teria mais que isso a se perder?
– Monique adora fazer isso pra acabar logo, bom, sempre é melhor acabar logo.
– Monique… E você?
– Pamela.
– Não são seus nomes de verdade, certo?
– Fica aí com a dúvida.
– Espero que você se sinta melhor que eu.
– É um trabalho como qualquer outro, na maioria das vezes chato.
– Se trabalho fosse bom, não seria trabalho.
– Poisé. A gente ainda tem uns 40 minutos. Quer tentar algo?
– Não, obrigado. Vou embora.
– Você pode voltar outra noite, tem outras garotas. A Estela é uma loirinha peituda, talvez te agrade mais.
– Quem sabe.
Coloquei minha roupa, ela me conduziu até a porta, me cumprimentou encostando fortemente a bochecha na minha, isso também parecia padronizado. Voltei para o bar, sentei no mesmo lugar; havia outra dupla jogando sinuca. Sem perguntar ou comentar nada, Bastião encheu meu copo. Eu não tinha mais dinheiro para pagar ele, muito menos para voltar com pão.
