é preciso quebrar o tédio em terças chuvosas
De vez em quando todos os olhos se voltam pra ela
O cansaço me doía nos ossos, o peso do dia em meus ombros como um encosto vivendo em minhas...
O sol da Grécia não derrete minha mente
O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da...
Você não precisa de porto num mar sem vida
Nasci numa casa em movimento, uma casa que tremia entre idas e vindas de pessoas, uma casa viva....
“Você me entedia, fui embora.”
Cinco palavras que resumiam o fim de 17 anos juntos. Você me entedia, fui embora. Achei que era uma brincadeira, liguei para ela e descobri que o celular estava na cama. No quarto, umas roupas bagunçadas, dei falta de uma mala, e o guarda-roupa estava parcialmente vazio.
Você me entedia.
Metade do dinheiro em espécie que tínhamos fora embora, cerca de dois mil. Havia umas fotos espalhadas, registros de tempos juntos e de eras passadas, uma única foto partida ao meio. Originalmente, éramos eu, ela e nosso cachorro. A parte rasgada estampava minha cara. Havia dois anos que nosso cachorro faleceu. Não queríamos crianças, o mundo estava cruel demais para pôr mais gente. Optamos por um vira-lata preto, que foi nosso xodó por 13 anos.
O restante estava no lugar, a casa estava arrumada, havia comida na geladeira. Ela sempre deixava pronta em dias de chuva, porque sabia que eu ia chegar tarde. Ela saiu no meio da tempestade? Achei de mau gosto, achei frio, achei triste.
Fui embora.
Liguei para a mãe dela. Não sabia de nada, estava preocupada, mas me disse: “Meu filho, ela te ama, vai voltar. Só deve estar estressada. Vocês brigaram, não foi?”. Não, não brigávamos há tempos. Estava tudo bem, tranquilo. Continuo sem entender.
Ela vai voltar.
Tirei as roupas da cama, jantei e dormi. Ela ia voltar no outro dia, só queria chamar a atenção, não tinha por que me preocupar. Fui trabalhar como sempre, saí mais cedo já que fui consumido pela insônia. Cheguei ao escritório, liguei meu computador, fiz minhas 8h48 de obrigações, voltei e dei a sorte de não pegar chuva. Silêncio, sirenes ao fundo, latidos, mas em casa, absolutamente nada. Mais uma vez, liguei para minha sogra.
Não se preocupa, ela volta.
Tentei falar com algumas amigas dela, ninguém sabia de nada ou ninguém quis me dizer nada. Mas ela ia voltar.
Outra noite de insônia, outro dia de escritório, outra vez a casa vazia. Liguei para alguns parentes distantes, fazia tempo que ela queria ir para a Bahia, onde tinha família, mas estava difícil conseguir férias. Mesmo assim, nada. Outra vez, liguei para a mãe dela: “Meu filho, ela ligou rapidinho de um número bloqueado, disse que está bem. Tentei falar que você está preocupado, mas ela disse para você seguir em frente.”
Seguir em frente…
Pra a frente, de onde? Me diz! Foram a porra de 17 anos juntos para ela simplesmente se sentir entediada e ir embora? Deve ter arrumado outro, aquela puta, e me vem com essa desculpa de tédio. Tédio? Eu também sinto tédio. Preciso atravessar todo dia a porra da cidade, ligar um computador, passar o dia fazendo cálculo de grana que eu não ganharia em três vidas. Eu também sinto tédio, eu também queria ir embora, mas eu não iria jogar a porra de 17 anos juntos no lixo.
Você me entedia, fui embora.
Respirei fundo, fiz comida, jantei, tentei dormir. Outra noite de insônia. Fui o primeiro a chegar ao escritório, precisei esticar porque era dia de pagamento. Cheguei em casa e aquele maldito silêncio de novo. Não tinha uma TV ligada, uma música, uma louça sendo quebrada, apenas o barulho infernal da cidade. Não quis perturbar minha sogra, falei novamente com amigos que tínhamos em comum, alguns parentes, mas nada. Estava começando a soar desesperado. Todos perguntaram se havíamos brigado, se eu tinha feito alguma coisa para ela, se eu tinha arrumado uma amante no trabalho. Olha para mim: eu saio todo dia cedo de casa, trabalho, volto e ficava com ela. Não tinha tempo de arrumar outra pessoa, não tinha tempo de fazer muita coisa. Ela, que trabalhava de casa e tinha mais tempo, ficava encarregada da rotina, mas eu sempre ajudava. Sempre que dava, eu cozinhava, lavava uma louça, sempre íamos juntos ao mercado. Óbvio que ela fazia mais, não precisava perder três horas do dia em ônibus e metrô, mas nem por isso eu negligenciava algo. A gente ficava junto, assistíamos à TV, às vezes saíamos para comer ou beber algo. Eu sempre estive aqui.
Ela vai voltar.
Dormi um pouco mais, era sábado, não precisava ir para o escritório, não tive ânimo de ir ao futebol, como gostava de fazer. Fiquei na cama, torci para ela voltar. Eu tenho férias acumuladas, a gente podia ir para a Bahia. Não só para a Bahia, podíamos fazer Bahia, Alagoas, Pernambuco, um pouco em cada, viajar uns 30 dias. Não tem como se entediar com 30 dias viajando. O dinheiro guardado ia ajudar, era só para isso. Quando chegasse aos cinco mil, a gente ia viajar… Antes eram três, mas precisávamos de mais, cinco era o ideal, ia dar para curtir bem. Ia curar o tédio…
Você me entedia.
Nossa conta conjunta estava intacta, ela não tinha usado o cartão. Eu não sabia mais com quem falar, não sabia mais o que fazer. Talvez eu fosse um tédio mesmo. Acho que a rotina nos comeu, mas eu estava sempre aqui, sempre, sempre com ela. A gente vivia junto, a gente não brigava, a gente só não tinha tempo. Acho que é isso, ela só precisa de um tempo. Não vai jogar esses 17 anos fora. Uma hora ela vai voltar, é toda uma história. A gente se conheceu na época da faculdade. Eu fazia Administração, ela fazia Publicidade. Era divertida aquela época, era festa, praia, sexo. Sinto falta daquilo. A gente foi morar junto depois de dois anos de namoro, com muito sufoco compramos esta casa, adotamos um cachorro, o Hércules. Era nossa alegria. Talvez tenha sido a perda dele que tenha desencadeado tudo. Ela vivia por esse cachorro. Sempre que eu chegava em casa, estava aquele bicho grande debruçado nela, na cama ou no sofá. Eu era o humano reserva, ficava chateado às vezes, até porque fui eu quem o encontrei na rua, mas tudo bem, eu também me apaixonaria por ela, eu também a escolheria como principal. Era uma pessoa tão incrível, falante, entendida de música, de pintura, de dança. Não muito raramente, eu chegava em casa e estava ela dançando com o cachorro, um cigarro de maconha na boca, música alta, ela conversando como se ele fosse responder. Provavelmente, ele a entendia. Acho que eu é que não entendia nada.
Ela só precisa de um tempo.
Quando o Hércules morreu, uma nuvem negra caiu sobre a casa. Ela passava horas deitada. Nos fins de semana, ficava horas vendo TV. Foram uns meses assim. Sugeri adotarmos outro, ela não quis, disse que nada seria como antes. Foi o que foi. Com o tempo, ela melhorou, as danças diminuíram, mas o som alto voltou à casa. Tudo parecia bem, até ela ir embora.
Você me entedia, fui embora.
Eu tentei recapitular, mas tudo parecia igual. Ela sempre falava em viajar, mas era difícil, muito trabalho, pouco tempo. Sinto falta daquela sensação que tínhamos no começo. Ela devia estar sentindo isso também. A ausência de novidade torna tudo desgastante. Acho que ela só se cansou, precisa de um tempo.
Ela só precisa de um tempo.
No decorrer do mês, o máximo que ela fez foi falar com a mãe, mas só para avisar que estava bem. Não quis dizer onde estava, o que fazia, se estava com outro ou sozinha. Apenas disse que estava bem e que era para eu seguir em frente. Continuei trabalhando. Algumas pessoas me perguntavam dela, eu não sabia o que dizer. Às vezes, falava que ela estava com a mãe lá em Minas, às vezes dizia que estava na Bahia vendo parentes. Todo dia eu chegava em casa e era o mesmo silêncio. Passei a fazer marmitas por falta de tempo, diminuí o futebol para uma vez a cada duas semanas. Às vezes eu via uns amigos, às vezes eu procurava por ela. Continuei sem notícias. Continuei meus dias.
Eu me entedio, preciso ir embora.
