Eu quero tocar fogo neste apartamento
Seus olhos não eram azuis, mas pareciam com o oceano
Numa mesa distante, um copo na mão, garrafa pela metade, longe da muvuca. Quando me deparei com...
De vez em quando todos os olhos se voltam pra ela
O cansaço me doía nos ossos, o peso do dia em meus ombros como um encosto vivendo em minhas...
O sol da Grécia não derrete minha mente
O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da...
Quando chego em casa nada me consola, nem a mim, nem ao gato. Ele me recebe com miados estridentes, passeia entre minhas pernas, às vezes ronrona, às vezes me morde e, em seguida, arranha a porta. Não sei como explicar que ela não vai voltar. Pego-o no colo e olho nos fundos de seus olhos azuis: “Somos apenas nós agora. Você precisa aprender a se virar.” Talvez devesse dizer isso ao espelho, mas prefiro falar com o gato, mesmo que me olhe com desdém fugindo dos meus braços como se fosse saltar de paraquedas.
Abro todas as janelas, é coisa da minha cabeça, mas ainda sinto aquele perfume doce e forte, que constantemente me fazia espirrar. Odiava aquele cheiro, e hoje ele me persegue. Não sei se sinto ódio ou saudades, mas ele ainda empesteia toda a minha casa.
Com as janelas abertas, o felino admira a rua. Ela ficava um bom tempo com ele nessa tarefa, um cigarro na mão esquerda e a direita acariciando seus pelos. Ficava lá com sua conversa: “Olha aquele cachorro. Se você fosse um cão, seria daquele jeito, ou talvez igual àquele?” O mais curioso é que o bicho olhava para ela e depois para a rua, como se entendesse.
Ele só se importava com ela, por isso, ignora minhas palavras, ou talvez ele não aceite que ela se foi. Eu também não aceito, mas não depende de mim, muito menos dele. Me posiciono na mesma janela, acendo um cigarro, pego um cinzeiro, uma dose de uísque, e observo a vida. Ele chega perto, olha para mim, cheira o copo apoiado no beiral, o cinzeiro, se apoia no meu braço e se estica até meu rosto. Lambe uma lágrima sorrateira. Depois disso sai. Não consigo conversar com ele como ela fazia. Sinto muito.
Coloco música para me fazer companhia. A casa me angustia sem barulho. A voz dela preenchia todos os cômodos. Uma voz suave, gostava, um pouco áspera, mas só eu percebia isso. O gato também devia saber. Ponho Caetano. Aprendi a ouvir com ela. Nunca gostei muito, mas hoje em dia me ajuda. “…você não está entendendo quase nada do que eu digo.” Ela enfatizava a última parte e sempre me olhava de olhos cerrados e rindo. A paz dela me irritava. De fato, eu não entendia. Sempre estou aflito, ansioso e cansado. Ela sempre querendo correr o mundo, correr perigo, querendo ir embora, querendo dar o fora.
Quando se animava, me puxava para dançar. Era fluida, orgânica. Eu, mecânico e travado. Às vezes, o gato se juntava a nós, sambava em nossos pés, acho que ele preferia Chico, mas sempre percebi um interesse nele por Caetano.
Com lágrimas nos olhos, termino o primeiro cigarro. A dose está pela metade. A lua surge brilhante. Eu era a noite. Ela era o dia. Tenho insônia, passava horas acordado enquanto ela dormia abraçada ao bicho. Suspirava e sorria de canto. Provavelmente, ela tinha bons sonhos. Eu vivo com pesadelos. Ultimamente, eles se projetam enquanto estou acordado. Tenho que ser o dia e a noite.
O gato surge em meus pés, se esfrega, olha para mim e pede comida. Vejo-me na condição de escravo e preciso servi-lo. Isso ele aprendeu rápido. Sem ela em casa, logo soube a quem pedir comida. Deixo meu posto, desloco-me até o armário e pego o saco de ração. Ele me encara com um brilho no olhar, berra com todas as suas forças e tenta morder minha perna. Paro o processo na metade e pego-o no colo novamente: “Olha, eu sei que não te sirvo tão bem quanto ela, mas somos apenas nós, só eu e você, tá me entendendo?”
Novamente, ele não entende, se joga no chão e, dessa vez, crava os dentes como gostaria de ter feito antes. Me ponho em meu lugar serviçal e encho seu pote. Volto ao meu posto, completo minha dose, percebo que a garrafa está quase acabando. A garrafa foi um presente dela: “Não quero alimentar seu vício, mas eu não sei te dar outras coisas.” Era o mesmo discurso com toda garrafa nova, uma bela hipocrisia. Ela sempre bebia junto.
Não tenho a capacidade de comprar minhas próprias garrafas. Confesso que não lembro a última vez que precisei fazer isso. Certamente, vou me assustar com a inflação das bebidas alcoólicas e com a sensação de precisar fazer essa pequena coisa sozinho, dentre as muitas pequenas coisas sozinho, dentre as grandes pequenas coisas sozinho. Bebo essa dose mais devagar, acendo outro cigarro. Talvez eu desista da cirrose e foque apenas no câncer de pulmão. Acho que isso deve me matar mais rápido.
Pensando bem, não posso morrer rápido. Preciso cuidar do gato. Somos apenas nós agora. Mesmo que ele não goste, somos apenas nós, um desgraçado e um felino, habitando o mesmo ambiente de cheiro doce. Saciado, ele volta ao meu encontro, sobe no beiral. Ele vai superar essa ausência, esse buraco, essa dor, esse ódio, essa raiva, essa estupidez. Apoio o copo, deixo o cigarro pela metade no cinzeiro e pego-o no colo. Começamos a dançar, a princípio ele não gosta, mas não quero que ele vá embora. Aperto com mais força, então começo a cantar:
E quero que você venha comigo, e quero que você venha comigo…

Me senti na sala observando as cenas descritas, os detalhes me fizeram mergulhar na história. Profundamente real, muito boa a experiência!