Madalena me deu o mar e eu fiquei a ver navios

A Prisão do Oceno

Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um...

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Eu tinha saído do bar, meio de fogo, meio torto, mas quando cravei os olhos naquela bunda, eu sabia que era ela. Aquelas curvas assentadas numa calça branca e aquele cigarro entre os dedos médio e anelar não podiam ser de outra pessoa.

Me veio à mente a primeira vez que a vi. Saímos juntos do elevador e, por coincidência, seguimos para a entrada do prédio. Naquela curta caminhada, reparei em seu corpo, seu caminhar, seu rebolado, tudo. Depois que ela se sentou na mureta, vi a forma como pegou o cigarro. Fiquei encafifado, e ela reparou:

– Quer um cigarro?
– Só o isqueiro, se puder emprestar.

Eu tinha um isqueiro, mas queria atenção. A gente falou umas trivialidades, e o ranço pelo trabalho nos uniu por uns minutos.

Demorei mais três dias para encontrá-la novamente. Sua mesa ficava num lugar escondido, longe das baias que prendiam a gente, então não sabia quando ela descia. Precisei ficar passeando até a entrada do elevador para descobrir. Às 14h, ela apareceu. Descemos juntos e ela contou que ela vinha sempre a essa hora e às 18h30, ótimos horários: uma estendida no almoço e uma enrolada exatos 18 minutos antes da nossa alforria.

Passamos a fumar sempre juntos, e após alguns encontros, questionei:

– Por que você segura o cigarro desse jeito?
– Pra deixar claro pros caras que eu quero que eles enfiem os dedos na minha buceta.

Eu dei uma risada torta. Ela continuou séria, com um olhar malicioso. Fiquei descompassado, mas para minha sorte, ela continuou:

– Meu pai fumava assim porque tinha perdido o indicador numa máquina de moer cana. Aí, quando eu era pequena, ficava fingindo que era ele. Quando passei a fumar de verdade, já tinha virado hábito. Mas eu realmente gosto que me masturbem, a indireta é válida.

Ela manteve o ar malicioso. Eu não esperava esse jab rápido e fiquei um pouco tonto. Para encerrar a conversa, ela perguntou se eu queria tomar uma cerveja na sexta.

No dia marcado, fomos a um pé sujo algumas quadras do escritório. Enquanto andávamos, ela aproveitou para tirar a camisa do uniforme. Estava com uma regata bem colada por baixo, que realçava a cintura fina, consequentemente, pude reparar nos seus seios. Não eram pequenos, não eram grandes, tinham o tamanho suficiente para caber na minha mão. Fiquei num tesão absurdo.

Chegando no boteco, sentei na mesa primeiro e ela fez questão de ficar na cadeira do lado. Tinha muita iniciativa. Fiquei receoso e com um pouco de vergonha, mas não iria reclamar. Quando fui pedir a cerveja, tivemos a primeira desavença.

– Pode ser um litrão de Brahma.
– Gato, prefiro Skol, Brahma me dá uma pesada.

Eu sempre preferi Brahma, mas beleza, era uma coisa irrisória naquele momento.

Chegou a garrafa, dois copos americanos. Brindamos, e ela se aproximou do meu pescoço, deu uma fungada como se fosse um cachorro.

– Você tem um cheiro muito bom.
– Suor e cigarro?
– Um pouco de suor, um pouco de cigarro, mas é seu cheiro mesmo.
– Não consigo identificar o cheiro dos outros.
– Eu sou meio cadela, faço isso bem.

Ela me lambeu de leve perto da nuca.

– Você é salgado.
– Engraçado, minha mãe dizia que eu era um doce.

Ela riu, me puxou para perto e me beijou. Eu já estava vidrado antes, depois disso perdi o rumo de casa. Ela agarrava meu cabelo, me beijava devagar, leve, molhado, puxava minha mão para sua perna.

Bebemos só meia garrafa e fomos para um motel.

Se de calça aquela bunda era magnífica, sem roupa era uma obra de Dali, definitivamente surreal. A gente transava com muita violência; ela sempre me pedia para bater, puxar seu cabelo e meter o mais forte que eu conseguia. Quando me faltava fôlego, a gente trocava de posição, mas mantinha o mesmo fogo.

De manhã, eu estava em êxtase, ela relaxada. Tomamos café numa padaria e depois cada um seguiu seu rumo. Passei o fim de semana sonhando com aquele momento e pensando no próximo.

Na segunda, às 13h50, eu já estava na entrada do prédio esperando.

– Parece que alguém estava ansioso para me ver.

Eu estava, mas não quis parecer emocionado, então me fiz de desentendido.

– Olha, você tem um pau maravilhoso, eu devo ter gozado umas seis vezes na sexta.

Senti minha cara corando e me enrolei para responder.

– Eu estava com muito tesão, você é muito gostosa, porra… É…
– Que tal a gente sair quarta? Mas dessa vez para beber algo mesmo.

Aceitei de cara, esquecendo que queria parecer despreocupado.
Segunda e terça se arrastaram como dois anos, mas finalmente chegou a quarta-feira e o expediente havia acabado. Fomos para o mesmo bar, mesma mesa, mesma cerveja, mas dessa vez ela sentou de frente para mim.

Conversamos sobre tudo, política, música, literatura, videoclipes; o que vinha à mente, a gente falava. Percebi que não era só pelo sexo, eu estava apaixonado por ela. A forma como ela falava, a forma como bebia sua cerveja, sua conversa aleatória, tudo me fascinava.

Naquele dia rolou só um beijo na saída, mas deixamos marcado novamente para sexta-feira.

Nosso próximo encontro foi direto no motel. A noite seguiu ainda melhor, tão boa que emendamos a manhã naquele sexo selvagem e perdemos a hora de sair. Pagamos um extra. Eu teria pago mais 12 horas tranquilamente, mas precisávamos comer, então resolvemos ir a um PF qualquer.

– Hoje você fez direitinho, lembrou como usar os dedinhos em mim. Fiquei sentindo falta na semana passada.
– Perdão, eu estava com muito tesão.
– Eu também. Nossas preliminares foram curtas, mas esta noite eu tirei mais proveito de você. Sem falar que minha buceta está sensível, preciso de uma semana para recuperar.
– Isso quer dizer que sexta tem mais?

Teve mais na sexta, cerveja nas quartas, café nas segundas, cinema nas terças, jantar nas quintas. Quando percebi, ela já estava passando diversas noites comigo.

Não sei dizer quanto tempo aquele êxtase durou; foi indescritível. Ela era safada, carinhosa, prestativa, me aguentava de todas as formas, mas sei lá, uma hora quis tomar Brahma ao invés de Skol.

Com o tempo, descobri que ela preferia Gil a Chico, dizia que eu era branco demais e por isso tinha esse desvio de caráter. Ela gostava mais de estoicismo enquanto eu era puro absurdismo. Eu sempre preferi a filosofia moderna, mas ela gostava dos gregos. Aquilo nos gerava muitas divagações, e eu queria que ela fosse mais existencial comigo.

Eu gostava de Chaplin, ela de Buster Keaton; eu preferia Drummond, ela Fernando Pessoa. Eu praticava luta, ela pole dance. Eu adorava molho vermelho, ela branco. Eu era isso, ela era aquilo, e aquilo passou a me incomodar.

Um vazio chato, uma sensação de que me faltava algo. Não havia brigas, discussões, nada, mas esses entraves me deixaram perdido. Nisso, fui atrás de quem preferia outra coisa.

Tive concordância em alguns filmes, alguns livros, algumas crenças. Claro que não iria encontrar o mesmo em todas, mas fui consumido pela novidade, pelo êxtase, pelo sexo diferente, que às vezes nem era bom, mas era diferente. E essa diferença passou a me enfeitiçar. Deixei meu relacionamento morrer. Ela se sentiu com raiva, triste, frustrada. Perguntou se havia algo errado, o que ela poderia mudar. Eu não soube responder. Perguntou se era seu corpo, seu cheiro, seu gosto. Neguei tudo. Ela sugeriu mais sexo, mais filme, mais cervejas, mais liberdade. Neguei novamente. Eu só não queria mais. Não dei uma boa satisfação, deixei passar, deixei morrer. Fiquei só com minha garrafa de Brahma, lendo Camus, ouvindo Chico e abominando minha curiosidade cruel.

Mas agora ela estava ali, do jeitinho que eu lembrava. Eu era outro, podia falar tudo, esclarecer, sem pudores, sem timidez. Poderia chamá-la para sair, para beber, para um motel, para ver um filme, até para o mar ver o nascer do sol. O céu era nosso limite.

Precisei correr um pouco para alcançá-la, minha cabeça batia como uma máquina de lavar, o álcool se agitava em meu corpo e em plena euforia só pude dizer:

– Oi.
– Oi… Eu preciso pegar o metrô, meu namorado tá esperando. Até mais.

Madalena foi para o mar, e eu fiquei a ver navios.