O ópio tem um cheiro doce
Seus olhos não eram azuis, mas pareciam com o oceano
Numa mesa distante, um copo na mão, garrafa pela metade, longe da muvuca. Quando me deparei com...
De vez em quando todos os olhos se voltam pra ela
O cansaço me doía nos ossos, o peso do dia em meus ombros como um encosto vivendo em minhas...
O sol da Grécia não derrete minha mente
O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da...
— Hoje, eu senti o perfume que você usou na primeira vez que a gente saiu.
— Isso faz quinze anos, ainda lembra?
— Lembro. Ele ficou na minha roupa depois, sem falar que naquele dia você me deixou esperando quase uma hora.
— Tinha que me arrumar pra você, e eu precisava de um espelho.
— Você sempre foi linda, não precisava de tanto tempo pra se arrumar, muito menos de um espelho pra afirmar isso.
— Queria ter o mínimo de autoestima, já que você nunca contribuiu pra isso, sempre estúpido e com um sarcasmo desnecessário.
— Era minha forma de demonstrar carinho.
— Carinho? De um urso, só se for.
— Você podia ter sido atencioso, amoroso e respeitoso, foi estupidez minha esperar isso.
— E você poderia ter sido mais direta comigo.
— Como, se você só olhava pro próprio umbigo?
— Eu olhava seus olhos também.
— Mas não enxergava minhas lágrimas.
— Sempre te ouvia.
— Mas não escutava minha dor.
— Eu sentia seu corpo.
— Mas nunca me deu prazer.
— Eu sentia seu gosto.
— Ele era amargo por sua causa, viu, o único sentido que te sobra é o olfato.
— Eu lembro daquele perfume doce, da pipoca do cinema, das árvores do parque, da comida barata.
— Você lembra de tudo isso, mas não lembra de mim; eu estava lá, eu te sentia. Sentia o gosto salgado do seu pescoço, seu cabelo suado nas minhas mãos. Lembro da suas camisetas pretas ridículas, e lembro do perfume barato que você usava. E olha pra você hoje, fede a álcool, cigarro e buceta.
— A tríade do ópio.
— O maldito ópio; eu era seu ópio, eu era teu prazer, e você era meu amor.
— Amar sempre foi uma coisa complicada pra mim.
— Claro que é, seu mundo não tem sentido.
— Ainda tenho olfato.
— Você tem memórias e tem a si mesmo.
— Não sei se tenho a mim.
— Você se pertence, você e seu amargor.
— A vida é amarga.
— Sim, mas havia momentos doces; você pode lembrar de cheiros, mas eu lembro de você, eu eu te enxergava, eu te admirava, e você tinha um sabor incrível, um sabor de descoberta, de euforia, de distração, mas você me via como ópio.
— É injusto, eu lembro disso; eu estava lá também.
— Poderia estar, mas você se importa hoje em dia? Você se importou em algum momento?
— Claro, a gente cresceu junto.
— Eu cresci; você ficou perdido em algum lugar no tempo, em busca de prazeres, gostos e lembranças.
— Estou aqui contigo agora.
— Você pode estar aqui, eu não; eu sou apenas um perfume doce perdido pela rua.
— Isso faz quinze anos, ainda lembra?
— Lembro. Ele ficou na minha roupa depois, sem falar que naquele dia você me deixou esperando quase uma hora.
— Tinha que me arrumar pra você, e eu precisava de um espelho.
— Você sempre foi linda, não precisava de tanto tempo pra se arrumar, muito menos de um espelho pra afirmar isso.
— Queria ter o mínimo de autoestima, já que você nunca contribuiu pra isso, sempre estúpido e com um sarcasmo desnecessário.
— Era minha forma de demonstrar carinho.
— Carinho? De um urso, só se for.
— Você podia ter sido atencioso, amoroso e respeitoso, foi estupidez minha esperar isso.
— E você poderia ter sido mais direta comigo.
— Como, se você só olhava pro próprio umbigo?
— Eu olhava seus olhos também.
— Mas não enxergava minhas lágrimas.
— Sempre te ouvia.
— Mas não escutava minha dor.
— Eu sentia seu corpo.
— Mas nunca me deu prazer.
— Eu sentia seu gosto.
— Ele era amargo por sua causa, viu, o único sentido que te sobra é o olfato.
— Eu lembro daquele perfume doce, da pipoca do cinema, das árvores do parque, da comida barata.
— Você lembra de tudo isso, mas não lembra de mim; eu estava lá, eu te sentia. Sentia o gosto salgado do seu pescoço, seu cabelo suado nas minhas mãos. Lembro da suas camisetas pretas ridículas, e lembro do perfume barato que você usava. E olha pra você hoje, fede a álcool, cigarro e buceta.
— A tríade do ópio.
— O maldito ópio; eu era seu ópio, eu era teu prazer, e você era meu amor.
— Amar sempre foi uma coisa complicada pra mim.
— Claro que é, seu mundo não tem sentido.
— Ainda tenho olfato.
— Você tem memórias e tem a si mesmo.
— Não sei se tenho a mim.
— Você se pertence, você e seu amargor.
— A vida é amarga.
— Sim, mas havia momentos doces; você pode lembrar de cheiros, mas eu lembro de você, eu eu te enxergava, eu te admirava, e você tinha um sabor incrível, um sabor de descoberta, de euforia, de distração, mas você me via como ópio.
— É injusto, eu lembro disso; eu estava lá também.
— Poderia estar, mas você se importa hoje em dia? Você se importou em algum momento?
— Claro, a gente cresceu junto.
— Eu cresci; você ficou perdido em algum lugar no tempo, em busca de prazeres, gostos e lembranças.
— Estou aqui contigo agora.
— Você pode estar aqui, eu não; eu sou apenas um perfume doce perdido pela rua.

Os detalhes dos seus textos são tão intensos que consigo ver cena por cena, momento por momento a cada linha
Obrigado meu amô