O presente é uma roupa que não nos serve mais

A Prisão do Oceno

Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um...

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Acordei com o cheiro de café e uma voz suave que cantava “baiana boa, gosta de samba, gosta da roda e diz que é bamba”. Levantei e segui a procissão que me chamava. A cozinha era iluminada por um sol branco que reluzia em sua pele escura, aquele banho de luz refletia um tom avermelhado; seus seios nus brilhavam com um pouco de suor, o cabelo que outrora fora alisado agora estava preso em formato de ninho. Me senti preso pela sereia.

– Me diz, alagoana gosta de samba também?
– Oxe, eu gosto de tudo e tu sabe disso.

Ela estava no fogão. Fui ao seu encontro, passei os braços pela sua cintura e beijei sua nuca.

– O que cê tá fazendo de bom?
– Cuscuz, café e macaxeira frita.
– Mandioca?
– Mandioca uma porra! Tu ta na minha casa e aqui é macaxeira.
– Mas tamo em São Paulo.

Ela se virou, apontou a colher para a boca do meu estômago, cerrou os olhos miúdos, e me fitou seriamente.

– Tu és paulista demais, nessa casa se fala macaxeira, se come macaxeira e se você discordar adivinha onde vou enfiar essa macaxeira?

Ri e sai de perto para não apanhar.

– Minha mãe cantava Clara Nunes também, Clara e Elis, era minha trilha sonora nas manhãs de domingo, normalmente acompanhado de um café da manhã parecido com o teu. Enquanto ela cantava, meu pai contava umas histórias do sertão da Bahia, minha vó comentava algo sobre o sítio no Paraná, e meu avô as vezes recordava do trajeto de Pernambuco pra São Paulo.
– Olha como cê foi privilegiado, música boa, comida boa, história boa, coisa que nem sempre o sudestino tem alcance.
– Vantagens de uma família vira-lata.
– Vira-lata e caramelo ainda por cima, olha como você tá branco e amarelado, sente aí logo.

Ágil como uma lebre, ela monta a mesa e dispõe uma fartura digna de novela das oito.

– Olhe, vou montar seu prato mas só porque tô de bom humor, não se acostume não.

Me serviu uma grande caneca de café, e num prato fundo colocou um pouco de cuscuz, manteiga, regou levemente com leite, um ovo frito por cima, e por fim, a macaxeira.
Tomei um gole do café e começamos a comer em silêncio, necessitávamos de um pouco de contemplação, sentir o cheiro do café, da manteiga, do cuscuz, a textura crocante da macaxeira na boca, a cor amarela que predominava a mesa em seus diversos tons.

– Tu devia vir morar aqui comigo.

O café amargou na boca depois dela romper o silêncio.

– Eu não sei nem viver em sociedade, quem dirá morar com alguém.
– Oxe, eu tu e dois gatos não parece muito bem uma sociedade, no máximo uma comuna.
– Não quero estragar teus dias.
– Você estraga teus próprios dias, os meus não, tem medo ou não me ama?
– Ambos.
– Olhe! Eu aqui te enchendo de mimo, cantando pra tu, e cê vem dizer que não me ama?
– Você sabe que esse negócio de amor me parece vazio.
– BIcho besta da porra! Tá vazio porque precisa ser preenchido.
– Preenchido com o que?
– Com música, com comida, com filme, com briga, com gozo, com tudo que a gente já faz.
– E a rotina?
– E quem disse que a rotina é de todo ruim? Aposto que você ouviu sua mãe cantar Clara Nunes diversas vezes no domingo, ouviu as mesmas histórias do seu pai, e do seus avós, isso não era rotineiro?
– Quando eu era criança tudo me soava como novidade.
– Tu continua criança, mas uma criança de trinta anos.
– A gente se conhece há um ano, não acha um tempo muito curto pra morar juntos?
– Não.
– Acha que vai dar certo? Pode dar certo, pode não dar, mas no meio de tudo isso eu dou pra você, o que acha?
– Você me pegou de calça curta.
– De cueca, porque tu tás tão confortável aqui que também não vestiu roupa.
– Tá muito calor pra por roupa.
– Sim, mas além do calor você tá em paz, com a tranquilidade de acordar tarde, ficar de cueca e ter o café servido.
– Isso não aconteceria todo dia.
– Claro que não, tá achando que em plena terça a gente vai ter todo esse tempo livre? Os boletos não se pagam sozinhos, além disso a gente já tem um pouco de rotina, você vindo aqui quase todo fim de semana já é cotidiano.
– Tenho medo do tédio, hoje você me tira da rotina, eu vivo em função de vir te ver, te ouvir cantar, de sentir teu corpo, teu suor, teu cheiro, eu não quero que isso acabe.

Num suspiro ela se levanta, vai até o aparador onde habita uma vitrola, olha seus discos que enfeitam a parede e retira o Falso Brilhante da Elis. Encaixa a agulha onde ainda dá pra ouvir aquela voz rasgada cantando “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, mas num instante começam as palmas, e ela volta em minha direção, sua voz se mescla com a da Elis e ambas começam a cantar.

“Você não sente, não vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer”

Ela me puxa para que eu levante, encaixa seu corpo junto ao meu, beija meu peito, me aperta forte, segura minhas mãos e continua.

“Nunca mais você buscou sua menina, pra correr no seu carro, loucura, chiclete e som”

Me leva numa dança descompassada e canta cada vez mais alto, a música preenche a sala, a casa, e transborda em mim.

“No presente, a mente o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”

A gente rodopia, pisa nos pés um do outro, o corpo flutua, sua voz ressoa.

“Que algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”

Minha pele arrepia e por fim ela termina.

“E precisamos todos rejuvenescer, e precisamos todos rejuvenescer!”

Ela para de cantar, o disco continua numa música em espanhol que nunca me apeteceu, sinto seu abraço forte, sua respiração, sua pulsação, seu suor, seu amor.

– Quando você estiver entediado, eu vou cantar para você, eu vou cantar alto, mas tão alto, que tu vais esquecer onde está, a gente vai se transportar pra uma lembrança, posso até cantar Clara pra ti, posso cantar Elis de novo e podemos ter músicas novas, Chico, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Gonzaga, Dominguinhos, meu amor, posso até usar meu inglês e te cantar Beatles, vou espantar teus males com minha voz, nem todo domingo de manhã vai ser assim, porque vai ser sempre uma manhã nova, e a gente vai precisar rejuvenescer.
Pode dar certo, pode não dar, mas no meio de tudo isso eu dou pra você, o que acha?