O sol da Grécia não derrete minha mente

O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da próxima. As redes de proteção criavam uma textura em todo o quarto e, apesar da leve brisa, o calor já era insuportável. O ventilador de teto, ruidoso, trabalhava há dois dias seguidos. Mal preso, trepidava, sempre parecendo que ia cair e nos arrancar um membro.

Em meu corpo, uma leve camada de suor, como uma segunda pele. Já ela, ignorando toda a sensação térmica, mantinha-se debruçada sobre meu peito. Suas costas brilhavam com a luz. Sentia uma leve gota escorrer de sua têmpora e caminhar até meu peito.

Os corpos queimavam parcialmente conforme a luz da manhã oscilava. Movíamo-nos pequenos centímetros quando o corpo começava a doer, mas nunca o suficiente para levantar e fechar a cortina. Havíamos transado de forma animalesca antes do sol nascer; nossas últimas forças foram usadas para abrir a janela e receber o frescor da noite chuvosa. Era segunda-feira, decretamos feriado.

Celulares desligados, garrafas de cerveja compunham o cenário. As roupas haviam se perdido há tempos: apenas dois corpos nus. De tempos em tempos, ela suspirava, fazia algum comentário trivial, mas nada que nos tirasse daquela inércia.

Dentro daquela rotina preguiçosa, quem ainda se atrevia a existir era o pequeno gato preto. Em alguns momentos, ele se aproximava, lambia o suor do meu braço e pedia um cafuné. O gato não era meu, a casa não era minha, mas minha presença ali já juntava pó.

Imaginei ter uma criança: curiosa, brincando, correndo. Não poderíamos ficar sem roupa, talvez nem tivéssemos direito à preguiça, apenas uma plena dedicação àquele ser pelos próximos 20 anos. Não sei se estarei aqui pelas próximas duas décadas, muito menos se iria querer me dedicar tanto a alguém.

Talvez, antes do filho, venha a necessidade de um casamento: uma formalidade, envolver Deus e o Estado para provar nossa união, dar uma festa gigantesca e mostrar a todos que estamos juntos. Ter a necessidade de um padre para reafirmar isso, ir a um cartório, assinar papéis, ter até testemunhas formais… A grande burocracia cotidiana. Os fluidos que trocamos já não são prova?

Pensando bem, nem sei dizer o que somos: amigos, namorados, amantes, conhecidos? Quais palavras precisam ser ditas para formalizar uma união? Preciso de um pedaço de metal com um nome gravado para isso? Não basta estar aqui? Derreter nesse dia quente, sentir o corpo dela molhado, saber que ela gosta quando puxo seu cabelo, quando aperto sua perna com tanta força a ponto de sentir o músculo do meu braço rígido e ver um sorriso em seu rosto? O gato como testemunha me parece mais que suficiente.

Deveria ter vindo a essa casa antes, tomado mais do tempo dela, observado esse ventilador trepidando por mais tempo. Mas visitei outras casas, descobri outros gestos, ouvi outras histórias, e tudo agora é um grande passado. Talvez essa casa, essa textura formada pelo sol, o feriado decretado, o gato em seus pulos e rodeios também sejam um grande passado um dia.

Mas pode haver um grande futuro: uma casa maior em uma cidade litorânea, dois cachorros correndo pelo quintal, uma criança se lambuzando com areia e água salgada. Podemos tomar sol ao ar livre, beber algo com os pés no mar. Talvez isso seja caro. Não haveriam mais feriados. Talvez esse sonho não seja meu. Seja apenas um comercial de margarina dos idos de 2004, no intervalo de uma novela com intrigas que também se passava em uma cidade litorânea, onde havia cachorros, crianças, trabalho, dinheiro e uma felicidade tão imensa que nunca coube em minha mente.

Uma felicidade que talvez eu não tenha direito. Ser feliz é não contestar: é cerveja, samba, manter o comportamento geral. Um sorriso no rosto e apenas dizer que tudo é divino e maravilhoso. Estar imerso nesse estoicismo, viver num barril, aceitar e não reclamar. Mas eu clamo e reclamo. Sou inquieto. O corpo derrete na cama, o suor encharca o colchão, minhas costas doem nessa posição. Mesmo assim, a inquietude me consome. Eu devia ter ido trabalhar, responder familiares, voltar para minha própria casa, viver minha própria vida. Mas qual vida foi escolhida?

Escolhi decretar um feriado. Escolhi ter um orgasmo. Escolhi estar aqui com ela, com esse gato, nessa cama, com esse ventilador trepidando e a textura da rede em meu corpo. Foi uma escolha minha? Ou me cansei do caos diário e me dei esse momento de prazer? Quantas vezes fiz isso? Quantas casas visitei? Quantas vezes visitaram minha casa? Quantas bocas beijei? Quantas cervejas bebi?

Fui infectado pelos amores dos filmes, dos comerciais de margarina, das novelas de fim de dia. Aposto que, além desse recorte, aqueles personagens também se perdem em pensamentos. Ou talvez o cachê seja tão alto que não há necessidade de contestar. Mas, mesmo assim, deve haver dúvidas entre visitar Paris ou Madri, comprar um artigo de luxo de marca X ou Y. Deve haver uma ansiedade dentro dessa ficção. Ou é mais fácil ser estoico bebendo champanhe em uma ilha grega?

Viver é melhor que sonhar? Quem disse isso nunca leu a teoria da simulação, não viu Matrix ou talvez tenha apenas ignorado o amanhã e vivido o aqui e agora. Aqui estou eu, suado, fazendo carinho em um gato, vendo o ventilador trepidar. Preciso comer, preciso de cafeína. Suprir essa necessidade básica é ter prazer? É viver? É sonhar?

E se eu sonhar que preciso de uma família, filhos, uma religião? E se eu batalhar para alcançar isso? Cada dia conta, cada dia uma vitória. Daqui a 20 anos, terei alcançado meu objetivo. E aí? Ficarei sentado no trono do meu apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar?

O que se faz quando se atinge um sonho? Arruma-se um sonho novo? Algo megalomaníaco? Uma mansão em Lisboa, uma Ferrari, uma rede de televisão para passar comerciais de margarina? Mas antes disso tudo, o que se faz quando não se sonha? Quando apenas se contesta, se imagina, se confabulam deuses e suas eras para suprir a inquietação da mente?

Preciso levantar, fazer uma dose de café, alimentar esse gato que não é meu. Talvez ficar rico, aprender grego, ajudar um orfanato, roubar um banco, comprar uma Ferrari. Ou apenas voltar para a cama, transar de novo, passar calor, ver a textura da luz se dissipar até a próxima chuva cair e a janela precisar ser fechada.