Crônica de um carnaval anunciado

Carnaval em São Paulo é um ato de guerrilha. É o combate contra a prefeitura, contra o Estado, contra a chuva que sempre cai e contra as ideias idiotas que só um burguês paulistano poderia ter.  Tudo em prol dos nossos quatro dias de paz. Se enfiar naquele mar de gente suada, beber uma cerveja superfaturada ou um corote barato comprado no mercado, sair seminu, berrar, cantar, gritar, beijar e dançar: esse é o nosso motim. Nossa guerra contra as 44 horas de trabalho semanal, contra as três...

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O sol da Grécia não derrete minha mente

O sol úmido de dezembro atravessava a janela. Sentia o vapor da última tempestade e o prenúncio da próxima. As redes de proteção criavam uma textura em todo o quarto e, apesar da leve brisa, o calor já era insuportável. O ventilador de teto, ruidoso, trabalhava há dois dias seguidos. Mal preso,...

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Você não precisa de porto num mar sem vida

Nasci numa casa em movimento, uma casa que tremia entre idas e vindas de pessoas, uma casa viva. Meu pai passava o dia ao violão, minha mãe cantava, as cervejas se espalhavam pelas mesas do salão, pessoas circulavam e deixavam seus traços. Histórias eram contadas e recontadas até virarem lenda, a...

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Desfeito e despedaçado

— Sexo mal feito também é sexo? — Aos olhos masculinos ou femininos? — Além do orgasmo. — Sexo mal feito é apenas uma má lembrança; aposto que você lembra mais das broxadas. — As piores lembranças são mais vivas. — Não sei se tudo é sexo: pode ser amor para os mais românticos, ou uma foda para os...

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É Preciso Imaginar Sísifo Entediado

Disse à minha esposa que precisava resolver algo no trabalho. Com atenção na TV, ela apenas me pediu para trazer pão quando voltasse. Peguei uma blusa grossa, passei pelo quarto da minha filha e me despedi. Ela me acenou sem tirar os olhos do celular. O cachorro foi o único triste com minha saída,...

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Madalena me deu o mar e eu fiquei a ver navios

Eu tinha saído do bar, meio de fogo, meio torto, mas quando cravei os olhos naquela bunda, eu sabia que era ela. Aquelas curvas assentadas numa calça branca e aquele cigarro entre os dedos médio e anelar não podiam ser de outra pessoa. Me veio à mente a primeira vez que a vi. Saímos juntos do...

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O presente é uma roupa que não nos serve mais

Acordei com o cheiro de café e uma voz suave que cantava "baiana boa, gosta de samba, gosta da roda e diz que é bamba". Levantei e segui a procissão que me chamava. A cozinha era iluminada por um sol branco que reluzia em sua pele escura, aquele banho de luz refletia um tom avermelhado; seus seios...

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