Seus olhos não eram azuis, mas pareciam com o oceano
O presente é uma roupa que não nos serve mais
Acordei com o cheiro de café e uma voz suave que cantava "baiana boa, gosta de samba, gosta da...
A Prisão do Oceno
Eu a seguia como um vira-lata recém adotado. Caminhávamos naquela imensidão de areia debaixo de um...
Seus são olhos tem cor de cerveja barata
– Seus olhos se parecem com esses dois copos de cerveja. – Claros, reluzentes e que levam todos ao...
Numa mesa distante, um copo na mão, garrafa pela metade, longe da muvuca. Quando me deparei com ela, tive certeza de que o tempo havia passado. Não me veio à mente a última vez que nos encontramos. Um, dois, talvez três anos? Me perguntei se aquelas marcas ao redor dos olhos já estavam lá. Me soou como novidade. Em outras eras, estaríamos apertados em um boteco, sentados na sarjeta com um copo trincado ou numa clássica cadeira de plástico com mesa patrocinada por cerveja.
Mas agora ela escolheu um bar onde podíamos conversar: mesas largas, lugares vazios, bebidas caras. O tempo há de trazer surpresas… ou o fígado e a coluna deram sinais de velhice?
A única coisa que não muda é que, outra vez, me vi encarando aqueles grandes olhos. Como eu amava aqueles olhos, aquelas caras, aquela boca, aquela ausência de sutileza. Tudo era estampado em seu rosto, tudo era sentido, tudo era vivido. Talvez por isso ela se escondia, fugia como um gato assustado e não dava sinal de vida.
— Bem?
— Bem, e você?
— Indo.
O tempo gera distância, timidez, vergonha, um vazio. Enchi meu copo, brindei e bebi.
— Me esperou muito tempo?
— Um pouco, mas estava sem nada pra fazer. Ver as pessoas me pareceu divertido.
— Fiquei surpreso por ter me chamado.
— Preciso mudar as coisas.
Essa história era velha: mudar de casa, mudar de cidade, mudar de emprego, mudar de país. Ela nunca foi um exemplo de estabilidade. Ela era um grande mar, um mar com ondas fortes que arrebentavam tudo que estivesse à sua frente. E eu? Eu simplesmente areia. Pequenos fragmentos do que um dia foram pedras. Pequenos pedaços fadados a sentir aquela euforia sem poder fazer nada.
Ela já havia mudado de faculdade, de profissão, de estado. Sempre levando seu caos para outros lugares, sempre voltando para a frieza dessa cidade, sempre voltando para uma cerveja.
— Mudar o quê?
— Cansei de ser fria.
O mais curioso dela era que, mesmo com sua intensidade, o silêncio era constante. Sua cara estampava seus sentimentos, mas nada era dito.
— Bom, você nunca gostou de partilhar nada.
— Não, mas agora eu quero. Eu tô cansada de ter pessoas ao meu lado que não conseguem me ver chorar.
— Eu me incluo nisso?
— Sim. Essa é sua chance. Você sabia que eu choro? Eu sinto dor, eu fico triste, eu me magoo, eu sofro. Eu sou humana. Eu não sou meu trabalho, não sou minha cidade, não sou a pessoa que você achou. Eu sou humana.
— Nunca te vi de alma aberta.
— Também nunca te vi. E esse é o problema. O tempo passa, não dá pra deixar tudo guardado. Preciso botar pra fora.
Eu vi um tsunami naquele momento, levando tudo que fosse concreto, arrastando cidades e florestas. Mas seu olhar era calmo. Ela não sabia negar sentimentos… ou eu que nunca soube identificá-los?
— Gosto dessa sua nova forma. Parece um Pokémon em evolução.
— Eu achava que era um Pikachu, nunca iria mudar.
— Agora é um Raichu.
— E saber sobre isso entrega nossa idade.
— Apenas números.
— Não. O tempo passa. Minha visão anda ficando horrível. E não é que eu me sinta velha, não é que eu seja velha… mas não dá mais pra ficar guardando.
— As senhoras reclamam muito mesmo.
— E vai dizer que elas estão erradas?
Eu deveria ser uma falésia no lugar da areia. Continuaria de encontro ao mar. As ondas fortes quebrariam as minhas paredes. Meus grandes pedaços de rocha cairiam sobre a água.
Harmonia e caos.
— Queria que a gente tivesse sido mais próximo.
— A gente pode ser agora.
— Não sei como isso funciona.
— Eu menos. Apenas quero.
Brindamos.
Depois, eu ouvi, falei, reclamei, gargalhei, lembrei de eras atrás. E, mais uma vez, me encantei com aqueles grandes olhos, aquelas caras, aquela boca.
Quando saímos, tudo estava perto: seu corpo, seu rosto, seus olhos, sua boca. Perto, muito perto.
Não soube o que fazer. Eu realmente não entendia os sentimentos dela.

Texto incrível, intenso.