Virar fumaça de novo
Minha Cabeça Desmonta
Minha boca amargaAmarga à cervejaAmarga à buceta Amarga à ressaca Minha cabeça desmontaRoda pela...
O ópio tem um cheiro doce
— Hoje, eu senti o perfume que você usou na primeira vez que a gente saiu. — Isso faz quinze anos,...
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Quando chego em casa nada me consola, nem a mim, nem ao gato. Ele me recebe com miados...
– Eu voltei a fumar por sua causa.
– Você havia parado por um pedido meu, então deu no mesmo.
– Quando um furacão atravessa sua vida, não dá para dizer que fica tudo a mesma coisa.
– Acho que sou apenas uma ventania, daquelas que passam e arrancam as roupas do varal.
– Começou arrancando minhas roupas, me molhou inteira, abalou as estruturas da minha casa e foi embora como qualquer força da natureza, sem ao menos pedir perdão.
– Pedir desculpas não faz meu estilo.
– Descobri da pior forma: jogada às traças, na sarjeta, torcendo para que um dia você voltasse. Pois bem, voltou. Cínico e belo, tal qual um tornado.
– Nesse momento, eu queria ser só a fumaça do seu cigarro. Ou melhor, as cinzas que voam vagarosamente pelo seu corpo enquanto você fuma nua.
– Você me deixava nervosa antes do sexo e relaxada após ele. Eu precisava de um cigarro antes e outro depois. Sinto muito pela sua roupa de cama queimada, mas não chega aos pés da destruição que você deixou.
– Eu nunca fui uma pessoa boa, mas nunca quis ser destrutivo.
– Você sempre gostou de ser sarcástico. Do que adianta dizer que não é uma boa pessoa se, em seguida, admite que não se importa? Você é mesquinho, horrível, cínico, idiota e muitos outros adjetivos. E, mesmo assim, eu ainda perco meu tempo lhe dando atenção. Além de tudo, é manipulador.
– Eu queria manipular a vida do jeito que você descreve, mas sou apenas uma brisa passageira, uma garoa, o vento da manhã, algo que vem, passa e se esquece.
– Queria te esquecer. Como eu queria. De todos os imbecis que já passaram pela minha vida. Você é o que eu mais queria esquecer, mas estou aqui, firme, forte, reconstruída depois da terra arrasada.
– Eu não consigo sentir o peso do caos.
– Pois eu consigo. Sentia seu peso em cima de mim, sentia seu peso na minha mente. Mas isso agora é passado. Eu refiz meu alicerce, subi muros, construí novos cômodos. Só me falta o telhado. Foi por lá que você entrou.
– Agora eu sei onde está a porta. Irei sair sem fazer barulho.
– Balela. Você já está aqui, fuçando tudo, inconveniente e intrometido.
– Talvez meu caos seja feito de curiosidade.
– Igual à fumaça do meu cigarro, você se dissipa, deixa rastros, marcas, cheiros.
– Eu me sinto perdido.
– Você era perdido antes, continua perdido agora. Um vento constante que não para em lugar nenhum. Mas, por essa noite, eu vou te dar abrigo.
– Fico feliz por você ser melhor que eu.
– Eu precisei ficar melhor depois de você.
– Sinto muito.
– Agora é tarde. Não aceito suas desculpas, mas te dou um abraço e divido meu cigarro.
– É tudo o que preciso: virar fumaça de novo.
