Você não precisa de porto num mar sem vida

Minha Cabeça Desmonta

Minha boca amargaAmarga à cervejaAmarga à buceta Amarga à ressaca Minha cabeça desmontaRoda pela...

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Nasci numa casa em movimento, uma casa que tremia entre idas e vindas de pessoas, uma casa viva. Meu pai passava o dia ao violão, minha mãe cantava, as cervejas se espalhavam pelas mesas do salão, pessoas circulavam e deixavam seus traços.

Histórias eram contadas e recontadas até virarem lenda, a verdade não pertencia a ninguém, a verdade se mantinha nos copos cheios, nas bocas sujas, no chão grudento de álcool. Aquilo era real.

Ouvir as mazelas sem questionar era a lei estabelecida, nada deveria ser contestado, nada deveria ser desfeito, a tilápia de 30kg era real, o sapo com boca costurada era real, a mulher que o deixou sozinho era real.

Crescer nessa realidade te torna um ser do mundo. Pertencer ao mundo te torna uma pessoa sem porto, perdida, náufrago, aquele que passa de embarcação em embarcação ouvindo as tristezas alheias.

O ser mundano não tem destino, é um observador, tira prazer das dores alheias, ouve histórias, músicas e bebe seus tragos. Conhece pessoas de todas as cores, trejeitos, raças, etnias e não se importa de onde eles vieram, o importante é a voz, o que cada entonação traz, a forma como se é contado, o desfecho que aquilo deve levar.

Os bares se tornam casas, as pessoas passam e regurgitam seus problemas, a regra é não julgar, em nenhuma hipótese se deve julgar, isso não quer dizer que se deva ficar quieto. Vomitar sua aflição é se sentir vivo, para ouvir mentiras precisa se contar mentiras, precisa comparecer com o outro, viver a intimidade alheia é fingir viver em sociedade.

Viver em sociedade é ter hábitos comuns a maioria, trabalhar, comer, reclamar. A mentira se estende, e uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade, você se esquece que é mundano, você se prende a um trabalho qualquer, uma casa qualquer, uma rotina qualquer.

Você esquece que é mundano, esquece sua casa cheia de álcool e música, esquece sua origem. A sua verdade de deturpa, você não é mais o observador, você é observado, você é julgado, você não é ninguém.

Quando você deixa de ser alguém se contrai, se compacta e lembra do salão cheio de mesas, e pessoas que iam e vinham. Em pequenos surtos de lucidez se dá ao prazer de ser fingir ser um observador, comete teus pecados e ouve histórias em um novo salão sujo, é um período curto, mas é o ápice da sua sanidade.

Nesses momentos você lembra que era alguém, você lembra de suas mentiras, amores e contos, a sua realidade é uma mesa suja, um copo cheio e uma conversa idiota. Aquele curto espaço se torna uma realidade doce.

Mas quando a cerveja seca e a conta é paga, a mentira toma conta novamente, a música pausa, as pessoas se vão, você ouve os murmúrios, mas volta pra aquela casa que alguém mandou você ter, volta pra sua cama que nem é tão confortável mas que se torna obrigatória, você volta pra sua mentira tão bem cuidada que até acredita que amanhã precisa trabalhar, acordar cedo, ser alguém, mesmo que você esteja ausente a muito tempo.